Tempo e fotografia

Acho mágico toda vez que o laboratório me envia o link para baixar as fotos digitalizadas do filme que enviei para revelar.

É surpreendente porque um mesmo filme pode reunir tempos muito distintos, é como se as fotos de filme pudessem retorcer tempo, e fazer ele passar de outra forma, reunindo coisas que não aconteceram juntas, mas que pela contingência de terem sido fotografadas num mesmo filme se agrupam. Talvez o tempo do filme seja menos sequencial e instantâneo como são as fotos de celular.

Com o filme há um tempo que é necessário aguardar, é preciso saber esperar. 

Esse filme aqui por exemplo, desde o primeiro clique até ele terminar e ser revelado levou mais de um ano. Ser surpreendida por momentos que escolhi registrar tanto tempo atrás me encanta.

Essa demora no tempo que só o filme proporciona é muito gostosa. Pelo contrário do que alguns podem imaginar não fico ansiosa para “revelar logo as fotos e ver como ficaram”, sei que o tempo de “revelação” chegará, pode ser que demore, porque às vezes um filme pode durar bastante tempo, mas o tempo de ver as fotos chegará.

Acho que o filme nos proporciona lidar com os tempos das coisas, sair da rapidez, da pressa e da velocidade, saber esperar, mas também saber a hora de apostar. Tirar uma foto de filme exige um pouco mais de cálculo que as fotos digitais, que é só bater muitas fotos e escolher uma boa. No filme essa lógica não funciona, porque a quantidade de cliques é limitada, 36 cliques na melhor das hipóteses, quando o filme foi recém colocado na câmera. 

Fotografar com filme e a psicanálise proporcionam alguma modificação na relação com o tempo, por isso me interesso tanto por ambos. Quem sabe fique como um projeto para um tempo futuro juntar essas duas coisas que mobilizam tanto o meu desejo. 

Tempo, exercício e rugas. 

Com os 40 se aproximando é quase inevitável não pensar sobre envelhecer. A geração de mulheres da minha idade está chegando aos 40 e assuntos um tempo atrás muito distantes, como menopausa, pais idosos e filhos adolescentes, agora estão ficando mais próximos. 

Tenho a sensação que não estamos apenas envelhecendo, estamos ficando mais velhas. Um bebê, um adolescente, um jovem de 20 anos envelhece a cada dia, mas ficar velho acho que se trata de outra coisa. 

Na cultura o velho é alguém que a ação do tempo é perceptível. O tempo passa para todos, mas nos velhos conseguimos ver o tempo agindo. Talvez quem consideramos velho seja alguém que conseguimos ver as marcas do tempo no corpo. 

Botox, preenchimento, procedimentos e mais procedimentos seriam tentativas de disfarçar a ação do tempo sobre o nosso corpo? Disfarçar que estamos ficando velhos? 

Mas tem algum problema em ficar velho? Ficar velho não é inevitável para quem vive por bastante tempo? 

Observo que agora além de tentar apagar os sinais do tempo na pele passaram para uma camada mais profunda do corpo, os músculos. 

Os imperativos sobre quem está ficando velho se atualizaram. Tenha a pele lisa, mas também tenha os músculos tonificados.

Compreendo a importância (importância talvez seja pouco) a necessidade dos músculos saudáveis para uma vida com mais qualidade na velhice. Mas às vezes fico com a impressão que todas essas recomendações, quase imposições, sobre o corpo que envelhece são uma tentativa de esconder o fato que o corpo velho muda, e ele não funcionará da mesma forma que um corpo jovem.

O ideal da jovem magra e bela já foi bastante criticado socialmente, a gente sabe que ali tem uma opressão ao corpo das mulheres disfarçado de preocupação com a saúde. 

Será que para nós mulheres de 40 (ou quase) esse ideal da velhinha com músculos fortes não é só uma atualização daquele ideal da jovem magra e bela?

Entender o que é saudável para cada uma é um processo particular, e acho que esse processo passa por tentar diferenciar o que são imperativos que vem do outro, da cultura, e o que parte de um desejo próprio.

Me parece que correr (literalmente) atrás de um corpo ideal é mais uma cilada. Se antes as palavras de ordem eram “tenha um corpo magro”, percebo que aconteceu um refinamento dessa ordem e desdobrou-se para “tenha um corpo forte, flexível e com muita mobilidade”. Se antes o inimigo era a gordura, agora é a flacidez. 

Tanto o antigo corpo magro, quanto esse novo corpo forte, flexível e que corre por muitos kilometros são ideais difíceis de atingir, ou que até são atingidos mediante muita renúncia de outros aspectos da vida, sofrimento, medicamentos e procedimentos.

Acho que envelhecer bem é envelhecer aceitando que o tempo não cessa de passar pelo nosso corpo enquanto estamos vivas, e enquanto ele passa inevitavelmente deixa marcas. 

Envelhecer bem talvez seja fazer o exercício de lidar com as marcas ao invés fazer força para tentar apagá-las. 

Óvulos, tempo, psicanálise

Óvulos, tempo, psicanálise.

Esses dias me deparei no Instagram com uma matéria sobre congelamento de óvulos, era uma entrevista com uma mulher que congelou seus óvulos, fiquei pensando num tanto de coisas sobre isso.

A primeira coisa que pensei é que essa matéria poderia ser uma grande publi disfarçada dessas clínicas que oferecem o serviço, a gente sabe como a indústria é especialista em criar necessidades para vender soluções. 

Toda a tônica da matéria era sobre “congelar o tempo” e poder escolher ser mãe quando fosse mais favorável. Para quem decidiu ser mãe mais para frente, e para quem ainda não decidiu, “Congelem!”. É claro que cada pessoa que congela seus óvulos tem seus motivos singulares, não quero aqui entrar nas questões específicas de cada caso.

O tempo passa e a única coisa que podemos fazer quanto a isso é ficar de boas com o envelhecimento, da pele, dos óvulos, do corpo. Por mais que exista no mercado diversos produtos anti-idade, sempre direcionados para as mulheres, para quem está vivo o tempo está passando, estamos ficando cada dia mais velhas. 

São criadas tantas intervenções no corpo para tentar enganar o tempo, mas o tempo é implacável, ele segue passando, e acho que passa melhor para quem faz as pazes com ele, e não para quem tenta passar a perna nele.  

Tenho a impressão que a quantidade de procedimentos ao invés de diminuir os efeitos do tempo deixa as pessoas mais frustradas, tanto é que muitas seguem tentando mais um procedimento, e mais um, e mais um, e mais um que enfim elimine os efeitos do tempo.

Todos os procedimentos possíveis não tiram do nosso corpo o tempo que passou. 

O capitalismo promete que a gente pode ser o que quiser, e que isso só depende da gente. Se você quiser ser mãe aos 50 só depende de você, congele os seus óvulos! É como se as soluções oferecidas pelo mercado tirassem da gente a necessidade de lidar com as renúncias que as escolhas implicam. É como se a gente pudesse viver sem perder nada. 

E é por isso que toda essa história de congelar óvulos me fez pensar na psicanálise e na castração. 

Perder é difícil, lidar com o que perdemos é péssimo, mas e se ao invés de fingir que é possível viver sem perder a gente tentasse criar um “saber-fazer” nosso com essa perda?

A velha psicanálise tá aí para isso, possibilitar a invenção do novo a partir do que se perdeu. 

Pode até ser que a psicanálise não rejuvenesça a pele, mas poder viver de uma maneira nova é muito melhor do que não ter rugas na pele!

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