
Antes a gente navegava na internet, ficávamos meio à deriva, indo para onde os ventos da nossa curiosidade e interesse nos levassem.
Navegar é preciso, mas não é mais possível, pelo menos não nas redes sociais.
Depois do advento do algoritmo não existe barco à deriva na internet, tudo o que já despertou nosso interesse deixa um rastro, e é esse rastro que o algoritmo segue, de forma que mais do mesmo vai brotar eternamente em sua tela.
Um dia eu cliquei num conteúdo patrocinado de uma psicóloga que prometia soluções para quem vive com TDAH, desse anúncio veio um outro de alguém que dizia “trazer sua autoestima de volta”, e desse veio outro direcionado para mulheres que viveram “relacionamentos tóxicos”.
Todos esses conteúdos patrocinados prometem resultados genéricos para sofrimentos que são particulares, como se viver com um diagnóstico X fosse igual para todos os sujeitos que sofrem de X.
As promessas de cura para a vida pipocam como uma praga no meu celular. Mas a vida não tem cura, a gente aprende a fazer alguma coisa disso tudo que é viver. Não tem cura mas tem tratamento, o que é bem diferente. Uma análise é uma forma de tratamento.
Uma análise não é instagramável porque na análise não temos 10 passos ou fórmulas prontas, o analista não tem as respostas, mas ele deve fazer o convite para que o analisante formule as perguntas, e no percurso de uma análise alguns esboços de respostas vão surgir.
Uma análise não é instagramável porque aquilo que extraímos da análise, e que nos serve de tratamento, é tão singular que talvez não seja possível o compartilhamento.
O enigma do que se passa em uma análise é aquela viagem incrível que você faz sem tirar fotos. Você não tem imagens para compartilhar, e também não consegue muito bem encontrar as palavras para explicar o que lá se passou, mas você carrega os efeitos de ter feito a viagem.

