Uma análise não é instagramavel

Antes a gente navegava na internet, ficávamos meio à deriva, indo para onde os ventos da nossa curiosidade e interesse nos levassem. 

Navegar é preciso, mas não é mais possível, pelo menos não nas redes sociais. 

Depois do advento do algoritmo não existe barco à deriva na internet, tudo o que já despertou nosso interesse deixa um rastro, e é esse rastro que o algoritmo segue, de forma que mais do mesmo vai brotar eternamente em sua tela. 

Um dia eu cliquei num conteúdo patrocinado de uma psicóloga que prometia soluções para quem vive com TDAH, desse anúncio veio um outro de alguém que dizia “trazer sua autoestima de volta”, e desse veio outro direcionado para mulheres que viveram “relacionamentos tóxicos”. 

Todos esses conteúdos patrocinados prometem resultados genéricos para sofrimentos que são particulares, como se viver com um diagnóstico X fosse igual para todos os sujeitos que sofrem de X. 

As promessas de cura para a vida pipocam como uma praga no meu celular. Mas a vida não tem cura, a gente aprende a fazer alguma coisa disso tudo que é viver. Não tem cura mas tem tratamento, o que é bem diferente. Uma análise é uma forma de tratamento. 

Uma análise não é instagramável porque na análise não temos 10 passos ou fórmulas prontas, o analista não tem as respostas, mas ele deve fazer o convite para que o analisante formule as perguntas, e no percurso de uma análise alguns esboços de respostas vão surgir. 

Uma análise não é instagramável porque aquilo que extraímos da análise, e que nos serve de tratamento, é tão singular que talvez não seja possível o compartilhamento. 

O enigma do que se passa em uma análise é aquela viagem incrível que você faz sem tirar fotos. Você não tem imagens para compartilhar, e também não consegue muito bem encontrar as palavras para explicar o que lá se passou, mas você carrega os efeitos de ter feito a viagem. 

Sobre corrida e pira

Fazia tempo que não ia caminhar na Beira-mar, fui no sábado de manhã e fiquei chocada!

De cada 10 pessoas que passavam por mim 8 estavam correndo.

Passavam rápido com suas camisetas de equipes de corridas, olhando com frequência seus relógios, que transformam cada passada em números, e quando finalmente as pernas param de correr, o equipamento diz se foi ou não uma boa corrida. Você pode comparar com seu desempenho anterior e quem sabe melhorar sua performance. Competir com você mesmo, olha que relaxante! 

Você pode também comprar fotos suas correndo, tem um fotógrafo que fica ali na beira da pista, capturando imagens dos corredores e vendendo para quem quiser publicar na rede social. 

Fiquei pensando que talvez um tempo atrás não tivesse tanta gente correndo porque não tinha onde publicar que você corria.  

Onde estão os idosos fazendo suas caminhadas? 

Onde estão os casais que caminham de mãos dadas?

Onde estão as pessoas passeando com os cachorros e carrinhos de bebês?

Onde estão as pessoas com fones de ouvido caminhando para contemplar a paisagem? 

Não sei se é sempre essa correria na Beira-mar, se tem alguma competição em breve, ou se fui desavisada no horário dos corredores. Só sei que se um dia achei que correr poderia ser um hobbie legal sábado eu desisti antes mesmo de começar. 

Não quero um hobbie que possa vir acompanhado da palavra desempenho. Achei muito sintomático que na sociedade da alta performance a diversão das pessoas seja correr, medir e melhorar. O trabalho já funciona nessa lógica, porque eu iria escolher me divertir com algo que parece trabalho? 

Eu me divirto lendo histórias, fui para a Beira-mar para ler e pegar um pouco de sol, mas às vezes eu também me divirto criando versões fantasiosas do que estou vendo. Gosto de observar as pessoas e quase sempre desejo saber mais sobre elas, por que tanto correm? 

Admito que eu também me divirto com algo que pode se parecer um pouco com o meu trabalho. Comecei esse texto pensando sobre como as diversões foram capturadas pela lógica do desempenho e no final entendi que na verdade as diversões são capturadas por aquilo que temos de mais singular, as nossas piras, e pra quem tem a pira do desempenho realmente a diversão pode passar por aí.

Vou deixar os corredores correrem em paz, enquanto fico aqui achando divertido e interessante pensar sobre isso, cada um com a sua pira. 

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