O analista e o algoritmo

Outro dia escrevi um pouco sobre como uma análise não é instagramável, pois as coisas que extraímos de uma análise são tão singulares, que talvez elas não entrem nessa lógica do compartilhamento das redes sociais. 

De uns tempos para cá venho pensando a partir do outro lado. E o trabalho do analista, é instagramável? 

A era das redes sociais é também o tempo onde tudo entra para a lógica da propaganda, do marketing digital. 

Uma rede social é um grande catálogo, onde cada um quer vender seu peixe, inclusive o peixe de alguns é ensinar os outros a venderem seus peixes. Vivo recebendo patrocinados de psicólogos vendendo cursos que ensinam outros psicólogos a “lotar a agenda”.

Me questiono que se de fato essas pessoas estivessem com a tal “agenda lotada” não precisariam vender cursos no Instagram, estariam tranquilas em seus consultórios atendendo. 

Navegamos por um oceano poluído por propagandas, posts patrocinados e conteúdos duvidosos. 

Mas e o trabalho de um analista, é possível vendê-lo no Instagram? 

Possível é sim, mas talvez não seja interessante.  

Não é por ter visto um psicanalista na aba explorar que alguém deseja fazer análise. As pessoas procuram uma análise porque tem questões, sofrimentos, dificuldades. Elas falam dessas questões a alguém, pedem uma indicação de analista, buscam alguém que possa escutá-las.

Acredito que o trabalho do analista circula pela via das indicações, mas de uma pessoa para outra, e não nas indicações das redes sociais.  

A minha aposta é nas pessoas e não no algoritmo.

A lógica de uma análise é inversa a lógica do algoritmo. O algoritmo entrega o que ele julga que vai capturar a atenção do sujeito, o algoritmo trabalha pelo sujeito, por isso muitas pessoas passam horas mortificadas nos feeds infinitos. 

Uma análise coloca o sujeito a trabalhar, o analisante precisa falar, associar, vir para a sessão, o analisante trabalha por sua análise, o oposto do sujeito passivo ao algoritmo. 

Em algum momento até cogitei fazer um perfil profissional, afinal eu gosto de escrever, inclusive já tinha vários textinhos sobre psicanálise, o trabalho seria de apenas transferir de um perfil para o outro. Mas só de pensar em ter que alimentar mais um monstrinho no Instagram eu desisti. 

Mas decidi que ao invés de fazer um perfil profissional iria fazer um blog, juntar os textos que já tinha e também deixar meu contato. Para encontrar um blog é preciso dar-se ao trabalho de procurá-lo, acho que esse caminho pode ser interessante para quem busca uma analista. 

Escrevo porque desejo, e quero seguir escrevendo porque desejo, e não para responder a uma demanda de criar conteúdo para um perfil profissional. 

Por isso acho muito complicado os analistas entrarem nessa lógica do algoritmo, uma vez que nosso trabalho opera por outra via, a via do desejo, e pelo que tenho visto o algoritmo sufoca o desejo, mas isso já é assunto para outro dia. 

Uma análise não é instagramavel

Antes a gente navegava na internet, ficávamos meio à deriva, indo para onde os ventos da nossa curiosidade e interesse nos levassem. 

Navegar é preciso, mas não é mais possível, pelo menos não nas redes sociais. 

Depois do advento do algoritmo não existe barco à deriva na internet, tudo o que já despertou nosso interesse deixa um rastro, e é esse rastro que o algoritmo segue, de forma que mais do mesmo vai brotar eternamente em sua tela. 

Um dia eu cliquei num conteúdo patrocinado de uma psicóloga que prometia soluções para quem vive com TDAH, desse anúncio veio um outro de alguém que dizia “trazer sua autoestima de volta”, e desse veio outro direcionado para mulheres que viveram “relacionamentos tóxicos”. 

Todos esses conteúdos patrocinados prometem resultados genéricos para sofrimentos que são particulares, como se viver com um diagnóstico X fosse igual para todos os sujeitos que sofrem de X. 

As promessas de cura para a vida pipocam como uma praga no meu celular. Mas a vida não tem cura, a gente aprende a fazer alguma coisa disso tudo que é viver. Não tem cura mas tem tratamento, o que é bem diferente. Uma análise é uma forma de tratamento. 

Uma análise não é instagramável porque na análise não temos 10 passos ou fórmulas prontas, o analista não tem as respostas, mas ele deve fazer o convite para que o analisante formule as perguntas, e no percurso de uma análise alguns esboços de respostas vão surgir. 

Uma análise não é instagramável porque aquilo que extraímos da análise, e que nos serve de tratamento, é tão singular que talvez não seja possível o compartilhamento. 

O enigma do que se passa em uma análise é aquela viagem incrível que você faz sem tirar fotos. Você não tem imagens para compartilhar, e também não consegue muito bem encontrar as palavras para explicar o que lá se passou, mas você carrega os efeitos de ter feito a viagem. 

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