
Óvulos, tempo, psicanálise.
Esses dias me deparei no Instagram com uma matéria sobre congelamento de óvulos, era uma entrevista com uma mulher que congelou seus óvulos, fiquei pensando num tanto de coisas sobre isso.
A primeira coisa que pensei é que essa matéria poderia ser uma grande publi disfarçada dessas clínicas que oferecem o serviço, a gente sabe como a indústria é especialista em criar necessidades para vender soluções.
Toda a tônica da matéria era sobre “congelar o tempo” e poder escolher ser mãe quando fosse mais favorável. Para quem decidiu ser mãe mais para frente, e para quem ainda não decidiu, “Congelem!”. É claro que cada pessoa que congela seus óvulos tem seus motivos singulares, não quero aqui entrar nas questões específicas de cada caso.
O tempo passa e a única coisa que podemos fazer quanto a isso é ficar de boas com o envelhecimento, da pele, dos óvulos, do corpo. Por mais que exista no mercado diversos produtos anti-idade, sempre direcionados para as mulheres, para quem está vivo o tempo está passando, estamos ficando cada dia mais velhas.
São criadas tantas intervenções no corpo para tentar enganar o tempo, mas o tempo é implacável, ele segue passando, e acho que passa melhor para quem faz as pazes com ele, e não para quem tenta passar a perna nele.
Tenho a impressão que a quantidade de procedimentos ao invés de diminuir os efeitos do tempo deixa as pessoas mais frustradas, tanto é que muitas seguem tentando mais um procedimento, e mais um, e mais um, e mais um que enfim elimine os efeitos do tempo.
Todos os procedimentos possíveis não tiram do nosso corpo o tempo que passou.
O capitalismo promete que a gente pode ser o que quiser, e que isso só depende da gente. Se você quiser ser mãe aos 50 só depende de você, congele os seus óvulos! É como se as soluções oferecidas pelo mercado tirassem da gente a necessidade de lidar com as renúncias que as escolhas implicam. É como se a gente pudesse viver sem perder nada.
E é por isso que toda essa história de congelar óvulos me fez pensar na psicanálise e na castração.
Perder é difícil, lidar com o que perdemos é péssimo, mas e se ao invés de fingir que é possível viver sem perder a gente tentasse criar um “saber-fazer” nosso com essa perda?
A velha psicanálise tá aí para isso, possibilitar a invenção do novo a partir do que se perdeu.
Pode até ser que a psicanálise não rejuvenesça a pele, mas poder viver de uma maneira nova é muito melhor do que não ter rugas na pele!
