Qual o seu desejo?

Qual o seu desejo?

Definir o abdômen?

Usar a roupa que quiser?

Ser você?

A experiência de habitar um corpo é inquietante, e cada um constroi essa experiência da sua maneira. Por isso para a psicanálise as questões do corpo não são fúteis, pelo contrário, são fundamentais. 

Há muito tempo os seres humanos realizam intervenções no próprio corpo. Tatuagens, cicatrizes, perfurações, e outras formas de marcar o corpo, eram recursos utilizados para construir uma borda nessa pilha de carne, ossos e vísceras que somos. Os procedimentos no corpo não são uma novidade. 

Mas o mundo mudou, as tecnologias avançaram, a indústria da beleza criou inúmeros procedimentos estéticos, com a promessa de que enfim poderemos ter o corpo desejado. 

Finalmente o nosso corpo poderá se tornar um outro corpo, o corpo ideal.

Bocas, narizes, sobrancelhas, barrigas, bundas, rostos, pele, tudo reconstruído pelas mãos de especialistas. Profissionais capazes de nos tornar o que queremos ser. Basta pagar. O trabalho deles é lidar com aquilo que é difícil para nós, o nosso corpo.

A indústria da beleza massifica essa experiência com o corpo, e aquilo que era o mais singular de cada um, o corpo próprio, parece estar se dissolvendo. Tá todo mundo querendo ficar meio igual. 

Fico com a impressão que a diferença entre os procedimentos antigos e os atuais é que aqueles marcavam uma singularidade, enquanto esses da contemporaneidade visam a busca por um ideal. 

Sabemos o quanto ficar correndo atrás de um ideal é uma tarefa inglória, ainda mais numa esfera tão viva quanto um corpo. Num corpo sempre há algo que escapa das palavras, das imagens, das ideias. 

Qual o seu desejo? 

Essa é a primeira pergunta que aparece no anúncio da clínica de cirurgia plástica.

Essa é uma pergunta muito importante, e difícil de ser respondida, pois nela há uma dimensão inconsciente. A gente não deseja só o que a gente imagina que deseja, desejamos coisas que nem sabemos que desejamos. Além disso, o desejo também muda, ele não é uma coisa fixa, que você só tem um e quando o alcança pronto, não deseja mais nada. 

O desejo é mais como um caminho, e não o ponto de chegada, ou talvez o desejo seja a própria caminhada, aquilo que nos move e faz seguir andando. 

Justamente pela errância do desejo é complicado responder sobre ele assim tão diretamente como a clínica sugere. Um abdômen definido, um colo mais marcado, usar a roupa que quiser. 

Não estou advogando que as pessoas devam parar de fazer cirurgias plásticas, pelo contrário, a indústria da beleza está aí, e as pessoas continuarão a fazer seus procedimentos. Às vezes esses procedimentos podem ser muito importantes inclusive para a dimensão subjetiva, não se trata somente de uma questão estética. 

Mas como psicanalista a pergunta que acho que deveríamos fazer é: de onde vem o seu desejo? 

Perguntar de onde mostra que no desejo há uma história, há um passado, coisas que marcaram a forma singular de cada um desejar. 

Perguntar-se de onde vem o desejo, para seguirmos mais advertidos do que diz respeito a nossa singularidade, até mesmo quando aparentemente tá todo mundo ficando cada vez mais igual. 

Quando as questões do corpo estiverem muito complicadas, talvez seja o momento de procurar o consultório de um analista e não um cirurgião plástico. 

Tempo, exercício e rugas. 

Com os 40 se aproximando é quase inevitável não pensar sobre envelhecer. A geração de mulheres da minha idade está chegando aos 40 e assuntos um tempo atrás muito distantes, como menopausa, pais idosos e filhos adolescentes, agora estão ficando mais próximos. 

Tenho a sensação que não estamos apenas envelhecendo, estamos ficando mais velhas. Um bebê, um adolescente, um jovem de 20 anos envelhece a cada dia, mas ficar velho acho que se trata de outra coisa. 

Na cultura o velho é alguém que a ação do tempo é perceptível. O tempo passa para todos, mas nos velhos conseguimos ver o tempo agindo. Talvez quem consideramos velho seja alguém que conseguimos ver as marcas do tempo no corpo. 

Botox, preenchimento, procedimentos e mais procedimentos seriam tentativas de disfarçar a ação do tempo sobre o nosso corpo? Disfarçar que estamos ficando velhos? 

Mas tem algum problema em ficar velho? Ficar velho não é inevitável para quem vive por bastante tempo? 

Observo que agora além de tentar apagar os sinais do tempo na pele passaram para uma camada mais profunda do corpo, os músculos. 

Os imperativos sobre quem está ficando velho se atualizaram. Tenha a pele lisa, mas também tenha os músculos tonificados.

Compreendo a importância (importância talvez seja pouco) a necessidade dos músculos saudáveis para uma vida com mais qualidade na velhice. Mas às vezes fico com a impressão que todas essas recomendações, quase imposições, sobre o corpo que envelhece são uma tentativa de esconder o fato que o corpo velho muda, e ele não funcionará da mesma forma que um corpo jovem.

O ideal da jovem magra e bela já foi bastante criticado socialmente, a gente sabe que ali tem uma opressão ao corpo das mulheres disfarçado de preocupação com a saúde. 

Será que para nós mulheres de 40 (ou quase) esse ideal da velhinha com músculos fortes não é só uma atualização daquele ideal da jovem magra e bela?

Entender o que é saudável para cada uma é um processo particular, e acho que esse processo passa por tentar diferenciar o que são imperativos que vem do outro, da cultura, e o que parte de um desejo próprio.

Me parece que correr (literalmente) atrás de um corpo ideal é mais uma cilada. Se antes as palavras de ordem eram “tenha um corpo magro”, percebo que aconteceu um refinamento dessa ordem e desdobrou-se para “tenha um corpo forte, flexível e com muita mobilidade”. Se antes o inimigo era a gordura, agora é a flacidez. 

Tanto o antigo corpo magro, quanto esse novo corpo forte, flexível e que corre por muitos kilometros são ideais difíceis de atingir, ou que até são atingidos mediante muita renúncia de outros aspectos da vida, sofrimento, medicamentos e procedimentos.

Acho que envelhecer bem é envelhecer aceitando que o tempo não cessa de passar pelo nosso corpo enquanto estamos vivas, e enquanto ele passa inevitavelmente deixa marcas. 

Envelhecer bem talvez seja fazer o exercício de lidar com as marcas ao invés fazer força para tentar apagá-las. 

Óvulos, tempo, psicanálise

Óvulos, tempo, psicanálise.

Esses dias me deparei no Instagram com uma matéria sobre congelamento de óvulos, era uma entrevista com uma mulher que congelou seus óvulos, fiquei pensando num tanto de coisas sobre isso.

A primeira coisa que pensei é que essa matéria poderia ser uma grande publi disfarçada dessas clínicas que oferecem o serviço, a gente sabe como a indústria é especialista em criar necessidades para vender soluções. 

Toda a tônica da matéria era sobre “congelar o tempo” e poder escolher ser mãe quando fosse mais favorável. Para quem decidiu ser mãe mais para frente, e para quem ainda não decidiu, “Congelem!”. É claro que cada pessoa que congela seus óvulos tem seus motivos singulares, não quero aqui entrar nas questões específicas de cada caso.

O tempo passa e a única coisa que podemos fazer quanto a isso é ficar de boas com o envelhecimento, da pele, dos óvulos, do corpo. Por mais que exista no mercado diversos produtos anti-idade, sempre direcionados para as mulheres, para quem está vivo o tempo está passando, estamos ficando cada dia mais velhas. 

São criadas tantas intervenções no corpo para tentar enganar o tempo, mas o tempo é implacável, ele segue passando, e acho que passa melhor para quem faz as pazes com ele, e não para quem tenta passar a perna nele.  

Tenho a impressão que a quantidade de procedimentos ao invés de diminuir os efeitos do tempo deixa as pessoas mais frustradas, tanto é que muitas seguem tentando mais um procedimento, e mais um, e mais um, e mais um que enfim elimine os efeitos do tempo.

Todos os procedimentos possíveis não tiram do nosso corpo o tempo que passou. 

O capitalismo promete que a gente pode ser o que quiser, e que isso só depende da gente. Se você quiser ser mãe aos 50 só depende de você, congele os seus óvulos! É como se as soluções oferecidas pelo mercado tirassem da gente a necessidade de lidar com as renúncias que as escolhas implicam. É como se a gente pudesse viver sem perder nada. 

E é por isso que toda essa história de congelar óvulos me fez pensar na psicanálise e na castração. 

Perder é difícil, lidar com o que perdemos é péssimo, mas e se ao invés de fingir que é possível viver sem perder a gente tentasse criar um “saber-fazer” nosso com essa perda?

A velha psicanálise tá aí para isso, possibilitar a invenção do novo a partir do que se perdeu. 

Pode até ser que a psicanálise não rejuvenesça a pele, mas poder viver de uma maneira nova é muito melhor do que não ter rugas na pele!

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