Textos

  • “Deve-se assumir a responsabilidade pelos próprios sonhos?” Freud

    Essa pergunta de Freud no texto “Alguns complementos à interpretação dos sonhos” (1925) serviu-me como guia para essa pequena investigação inicial sobre a questão da  responsabilidade em psicanálise.

    Nesse texto Freud formula indagações sobre se devemos ser responsáveis ou não pelos conteúdos “imorais” que surgem nos sonhos. Seu argumento para afirmar que devemos sim ser responsáveis por esses conteúdos é ancorado no fato de que os sonhos são elaborações inconscientes, e o inconsciente faz parte do “eu”. Encarar os conteúdos inconscientes como alheios ao sujeito é afastar-se da psicanálise “e se digo, defendendo-me, que o que em mim é desconhecido, inconsciente e reprimido não é meu ‘Eu’, então não me acho no terreno da psicanálise (…)” (FREUD, 1925)

    Outro texto que me ajudou a pensar sobre o tema foi o artigo “A ‘responsabilidade subjetiva’ em psicanálise”, de Alfredo Eidelsztein. O autor faz um interessante levantamento sobre o conceito de responsabilidade e como ele foi transformado em “responsabilidade subjetiva”. Ele traz a etimologia da palavra responsabilidade, e constrói o caminho de como o conceito jurídico de “responsabilidade subjetiva” passou a ser utilizado em outros contextos.

    O autor tece muitas críticas ao conceito de “responsabilidade subjetiva”, pois para ele esse conceito só pode ser aplicado se considerarmos cada indivíduo como uma unidade única e imune às influências sociais, o que geraria uma impossibilidade de aplicação do conceito, pois somos formados também pela época e contexto em que vivemos. Segundo Eidelsztein os defensores da “responsabilidade subjetiva” acreditam que “todo ato e toda palavra terão, em última instância, um indivíduo que os garanta, ainda que sejam, descritivamente, inconscientes.” (EIDELSZTEIN, 2021, p. 42). De acordo com o autor esse pensamento individualista e que exclui as contingências sociais da formação do indivíduo serve fortemente à moral capitalista. 

    Atualmente vemos uma grande tendência à culpabilização do sujeito, disfarçada de responsabilização, pela situação à qual ele se encontra. Numa sociedade pautada pela meritocracia se alguém está em uma situação confortável é por mérito, e se está em uma situação desfavorável é por falta de esforço, ou seja, é do sujeito a responsabilidade por ter se esforçado pouco. 

    As responsabilidades em nosso tempo estão se multiplicando, as empresas dizem ter responsabilidade ambiental, mas será que se responsabilizam de fato pelo meio ambiente, com ações concretas, ou só colocam selos com essas palavras pois ter responsabilidade “agrega valor”? Os sujeitos também devem ter “responsabilidade afetiva”, afinal dizem que somos “eternamente responsáveis pelo que cativamos”, mas e quem se deixa ser cativado? Qual é a sua responsabilidade? 

    Voltando para a responsabilidade em psicanálise, a questão que me faço é: como considerar a responsabilidade pelo inconsciente como propõe Freud sem ignorar as estruturas sociais como alerta Alfredo Eidelsztein? 

    Entendo que a resposta para essa pergunta é complexa demais para ser esgotada nessa reflexão inicial, portanto eu nem conseguiria dar a ela uma resposta completa. Vou trazer alguns apontamentos para essa questão elaborados a partir dos textos lidos e das anotações que fiz durante as aulas.   

    Segundo o dicionário responsabilidade é “Obrigação de responder pelas  ações próprias, pelas dos outros ou pelas coisas confiadas”. Já responsabilidade no âmbito psicológico “Sua definição psicológica une, num laço de solidariedade, o sujeito a seu ato, o que o coloca na situação de ter de responder por este.” HOFFMANN, 2005, p. 41. 

    Então nos responsabilizarmos pelo nosso inconsciente seria buscar dar respostas a esses atos e conteúdos. Essas respostas seriam interpretações do inconsciente,  construídas em análise. As interpretações não são uma resposta fechada e definitiva, afinal o inconsciente tem uma impossibilidade de ser sabido por inteiro, essas respostas serão sempre parciais e circunscritas ao contexto da análise. Uma vez que o inconsciente ocorre sob transferência, toda a responsabilização pelo inconsciente também só poderia ocorrer no âmbito de uma análise. Nesse sentido Hoffmann afirma “a responsabilidade do sujeito (o analisando) está relacionada à coragem de deixar falar o inconsciente” HOFFMANN, 2005, p. 45. 

    Por essa razão entendo que a responsabilidade que o discurso meritocrático atual tanto prega é totalmente diferente da responsabilidade no âmbito de uma análise, definitivamente não estamos falando da mesma coisa, apesar de usarmos a mesma palavra.    

    *Texto apresentado na Jornada de Encerramento do 1ª ano Turma 2021 do Curso de Psicanálise de Orientação Lacaniana em 16/07/2022

    Bibliografia 

    Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/responsabilidade [consultado em 20-02-2022].

    EIDELSZTEIN, A.; KUSHNIR (TRADUTORA), C. Q. A “responsabilidade subjetiva” em psicanálise. Fractal: Revista de Psicologia, v. 33, n. 1, p. 41-46, 17 mar. 2021.

    FREUD, Sigmund. Alguns complementos à interpretação de sonhos (1925). Obras completas, v. 16.

    HOFFMANN, Christian. ‘Eu’ devo assumir a responsabilidade do inconsciente. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 8, p. 41-46, 2005.

  • Sobre auto-conhecimento e angústia

    A jornada do auto-conhecimento para muitos se tornou uma busca obsessiva por conhecer cada detalhe de si.

    E se tornou também um grande mercado, quantas propagandas de cursos, imersões e retiros nesse sentido já passaram pelo seu feed?

    O autoconhecimento virou uma mercadoria, quanto mais você se conhece maior o seu valor no  mercado. As promessas são que você irá se tornar uma pessoa mais interessante, uma namorada mais desejável, um profissional mais capacitado. (Ou só um grande chato mesmo!)

    A expectativa é que quando você se conhecer o suficiente enfim encontrará paz em ser quem é.

    Fim da angústia.

    Mas a angústia de estar vivo a gente não consegue jogar fora, a gente recicla e transforma em outra coisa. Uns pintam, uns escrevem, uns compõe, uns comem, uns bebem, uns correm, uns escutam as angústias dos outros, enfim, cada pessoa tem um jeitinho particular de lidar com quem é.

    Mas as vezes é realmente confuso e atrapalhado ser a gente mesmo. Quando estiver sofrido demais procure profissionais capacitados para te escutar.  Desconfie de qualquer um que propõe um caminho milagroso, rápido, quântico, ou que faça você pensar que as respostas para o seu sofrimento atual estão no comportamento de familiares que já morreram e você sequer conheceu.  

    Ao que tudo indica quando a gente pifa é porque tá se conhecendo demais, não de menos, e tá preso numa espécia de curto circuito super-mega-ultra-conhecido.

    Geralmente não é autoconhecimento que nos falta, é auto desconhecimento mesmo.

    E aquela paz que prometem só existe para quem é muito alienado (alô good vibes e positividade tóxica) ou está no caixão.

    Não descasem em paz.
    Viva a angústia de estar vivo 🖤

    *Texto publicado no Instagram pessoal 30/06/2021

    Imagens com os trechos dos livros:

    1-Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano (2017), Dunker, Christian Ingo Lenz.

    2- Niketche: Uma História de Poligamia (2004) Chiziane, Paulina

  • Todo amor é inventado

    Um dia desses estava ouvindo uma história sobre como um casal se conheceu.

    Uma amiga em comum armou um encontro fortuito entre eles, após o encontro ela falou para ambos “olha, meu amigo gostou de você” “olha, minha amiga gostou de você”, sendo que nenhum dos dois havia mencionado para ela qualquer interesse.

    Esse casal já compartilha uma parceria de quase 10 anos, e escutar essa história me fez pensar sobre como na realidade todos os amores são inventados.

    A amiga inventou o interesse, e essa invenção funcionou como uma faísca para que eles criassem algo dali para frente.

    O amor é uma invenção justamente porque ele não é nada, é uma suposição.

    Uma invenção que construímos junto com o outro, pois se eu construir apenas na minha cabecinha não passa de imaginação.

    Quantas pessoas estão buscando o amor?

    Talvez esteja difícil de encontrar porque amor não vem prontinho e embalado, como uma lasanha congelada ou uma comprinha na internet.

    Numa sociedade onde achamos que tudo se resolve a partir do consumo, inventar amores e consentir com a falta de garantias ficou cada vez mais complicado.

    * Texto publicado no Instagram pessoal 06/10/2021

  • Sobre a metade da laranja

    Uma clássica imagem do amor é essa de encontrar a outra metade da laranja, aquela parte que falta, mas que quando encontrada produz algo inteiro.

    Há também quem afirme que não busca a outra metade da laranja, pois já se considera uma fruta inteira.

    O amor não é nenhuma das duas coisas.

    Não existe a outra metade da laranja, não há outro que possa te completar.

    Mas você também não é uma laranja inteira, algo falta, e isso que falta não pode ser completado, pois é essa falta que nos move e constitui.

    É a falta que faz a gente escrever, trabalhar, amar, estamos sempre em busca, e nesse caminho de buscar o que falta outras faltas surgem, e a busca contínua.

    Quem se vê como completo não consegue se relacionar com ninguém, pois busca alguém completo, como a imagem que tem de si, e adivinhem, nunca encontra ninguém inteiro, tá todo mundo esburacado.

    Pode estar aí uma das ciladas do tão propagado imperativo do amor-próprio, talvez em algum grau esse discurso possa engendrar um narcisismo desmedido (lembrando que uma dose de narcisismo é fundamental).

    E para quem busca a outra metade da laranja a relação também é impossível, pois não há ninguém que possa oferecer essa completude.

    O amor não tapa os nossos buracos, talvez os coloque em evidência, por isso não há caminho mais propício para nos conhecermos do que através da trilha do amor.

    Acho que se a gente fosse uma fruta seria um coco, que só cresce em penca, junto dos outros, e tem um buraco enorme dentro, mas graças a esse vazio existe espaço para que a saborosa água seja produzida.

    🥥🖤

    *Texto publicado no Instagram pessoal em 14/04/2022

  • Eu me basto?

    Tenho escutado e me incomodado com um discurso dirigido às mulheres de que nós devemos nos bastar, principalmente quando se trata de amor.

    Seja seu próprio date.
    Seja seu próprio amor.

    Entendo que o “Eu me basto!” é o oposto a uma posição em que uma mulher só seria “completa” se tivesse uma relação. E por esse lado é sim muito importante a gente apontar que não precisamos de um relacionamento para validar nossa existência.

    Existimos sim para além do nosso estado civil.

    Mas ao mesmo tempo o se bastar também é um imperativo para todos os outros aspectos da vida.

    Como se para tudo bastasse força de vontade, persistência, motivação, basta querer e se esforçar o suficiente para tudo conseguir, e o que não foi conquistado é porque teve pouco esforço. Esse discurso do esforço e mérito é muito cruel e simplista, pois joga tudo no sujeito, como se não vivêssemos em sociedade, como se tudo fosse apenas uma questão individual.

    A real é que a nossa constituição enquanto sujeitos é o oposto do “Eu me basto”, ninguém se basta, não podemos prescindir ao outro. Em um momento da nossa vida, quando éramos bebês, essa necessidade era crucial, sem o cuidado do outro não sobreviveríamos.

    Mas e quando viramos adultas, como fica isso?

    Agora como adultas conseguimos fazer nosso próprio ranguinho e expressar nossas aflições através da linguagem. Mas mesmo assim os laços afetivos, de cuidado e troca continuam sendo fundamentais em nossa vida. Um beijo prazamiga, aquele laço lindo e sincerão 🖤

    A confusão tá feita quando somos levadas a achar que a única opção de laço é um relacionamento amoroso. Os relacionamentos viram meta e objetivo, ter um relacionamento torna-se uma necessidade.

    Muitos relacionamentos mesmo sendo uma bosta são mantidos pois parece menos pior ter um relacionamento ruim que não ter nenhum. Ou então vemos o oposto dessa situação, que é não conseguir se relacionar.

    As vezes a mesma lógica (necessito de um relacionamento que me complete) que leva algumas a permanecerem num relacionamento ruim faz outras perseguirem o “match perfeito” —> que vai gerar o relacionamento perfeito —> que enfim vai me completar. Porém como esse match perfeito nunca vem (não é culpa do app, é porque ele não existe mesmo!!) a pessoa não consegue se relacionar com ninguém.

    Entendo que muitas vozes que falam “Eu me basto” talvez estejam apontando algo do tipo “Não fique em um relacionamento bosta, pois você se basta, você não precisa de um relacionamento”. De fato não é a necessidade que deve sustentar um relacionamento e sim o desejo.

    Eu não necessito de um relacionamento, mas posso desejar estar em um. Pode até parecer que é só um joguinho de palavras, mas quando a gente implica o nosso desejo nas coisas é que o bagulho fica louco e gostoso.

    Eu trocaria o “Eu me basto!” por:

    – Eu não preciso, mas desejo 🖤

    Nas fotos 2 e 3 livros que trazem discussões importantes sobre o amor ❤️

    *Texto publicado no instagram pessoal 28/07/2022

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