Sobre a metade da laranja

Uma clássica imagem do amor é essa de encontrar a outra metade da laranja, aquela parte que falta, mas que quando encontrada produz algo inteiro.

Há também quem afirme que não busca a outra metade da laranja, pois já se considera uma fruta inteira.

O amor não é nenhuma das duas coisas.

Não existe a outra metade da laranja, não há outro que possa te completar.

Mas você também não é uma laranja inteira, algo falta, e isso que falta não pode ser completado, pois é essa falta que nos move e constitui.

É a falta que faz a gente escrever, trabalhar, amar, estamos sempre em busca, e nesse caminho de buscar o que falta outras faltas surgem, e a busca contínua.

Quem se vê como completo não consegue se relacionar com ninguém, pois busca alguém completo, como a imagem que tem de si, e adivinhem, nunca encontra ninguém inteiro, tá todo mundo esburacado.

Pode estar aí uma das ciladas do tão propagado imperativo do amor-próprio, talvez em algum grau esse discurso possa engendrar um narcisismo desmedido (lembrando que uma dose de narcisismo é fundamental).

E para quem busca a outra metade da laranja a relação também é impossível, pois não há ninguém que possa oferecer essa completude.

O amor não tapa os nossos buracos, talvez os coloque em evidência, por isso não há caminho mais propício para nos conhecermos do que através da trilha do amor.

Acho que se a gente fosse uma fruta seria um coco, que só cresce em penca, junto dos outros, e tem um buraco enorme dentro, mas graças a esse vazio existe espaço para que a saborosa água seja produzida.

🥥🖤

*Texto publicado no Instagram pessoal em 14/04/2022

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