Eu me basto?

Tenho escutado e me incomodado com um discurso dirigido às mulheres de que nós devemos nos bastar, principalmente quando se trata de amor.

Seja seu próprio date.
Seja seu próprio amor.

Entendo que o “Eu me basto!” é o oposto a uma posição em que uma mulher só seria “completa” se tivesse uma relação. E por esse lado é sim muito importante a gente apontar que não precisamos de um relacionamento para validar nossa existência.

Existimos sim para além do nosso estado civil.

Mas ao mesmo tempo o se bastar também é um imperativo para todos os outros aspectos da vida.

Como se para tudo bastasse força de vontade, persistência, motivação, basta querer e se esforçar o suficiente para tudo conseguir, e o que não foi conquistado é porque teve pouco esforço. Esse discurso do esforço e mérito é muito cruel e simplista, pois joga tudo no sujeito, como se não vivêssemos em sociedade, como se tudo fosse apenas uma questão individual.

A real é que a nossa constituição enquanto sujeitos é o oposto do “Eu me basto”, ninguém se basta, não podemos prescindir ao outro. Em um momento da nossa vida, quando éramos bebês, essa necessidade era crucial, sem o cuidado do outro não sobreviveríamos.

Mas e quando viramos adultas, como fica isso?

Agora como adultas conseguimos fazer nosso próprio ranguinho e expressar nossas aflições através da linguagem. Mas mesmo assim os laços afetivos, de cuidado e troca continuam sendo fundamentais em nossa vida. Um beijo prazamiga, aquele laço lindo e sincerão 🖤

A confusão tá feita quando somos levadas a achar que a única opção de laço é um relacionamento amoroso. Os relacionamentos viram meta e objetivo, ter um relacionamento torna-se uma necessidade.

Muitos relacionamentos mesmo sendo uma bosta são mantidos pois parece menos pior ter um relacionamento ruim que não ter nenhum. Ou então vemos o oposto dessa situação, que é não conseguir se relacionar.

As vezes a mesma lógica (necessito de um relacionamento que me complete) que leva algumas a permanecerem num relacionamento ruim faz outras perseguirem o “match perfeito” —> que vai gerar o relacionamento perfeito —> que enfim vai me completar. Porém como esse match perfeito nunca vem (não é culpa do app, é porque ele não existe mesmo!!) a pessoa não consegue se relacionar com ninguém.

Entendo que muitas vozes que falam “Eu me basto” talvez estejam apontando algo do tipo “Não fique em um relacionamento bosta, pois você se basta, você não precisa de um relacionamento”. De fato não é a necessidade que deve sustentar um relacionamento e sim o desejo.

Eu não necessito de um relacionamento, mas posso desejar estar em um. Pode até parecer que é só um joguinho de palavras, mas quando a gente implica o nosso desejo nas coisas é que o bagulho fica louco e gostoso.

Eu trocaria o “Eu me basto!” por:

– Eu não preciso, mas desejo 🖤

Nas fotos 2 e 3 livros que trazem discussões importantes sobre o amor ❤️

*Texto publicado no instagram pessoal 28/07/2022

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